terça-feira, 27 de dezembro de 2011


 Ssssssh! - ele encostou seu dedo indicador em meus lábios como forma de me fazer calar -, obedeci com um sorriso. Estava escuro e a noite, completamente estrelada, a lua era de um brilho esplendoroso. Podia ver tudo isso através da janela. - Apenas aproveite o momento - disse ele com uma voz doce, bem ao pé do meu ouvido - então pegou levemente a minha mão esquerda, unindo bem junto à sua mão direita, envolveu a outra mão em minha cintura, e como um sussurro, bem ao fundo da sala, começou a nossa música. Dançamos até que os pés não aguentaram mais. A árvore de Natal piscava com um brilho reluzente, toda colorida. Parecia que naquele momento eu estava mais sensível às cores, aos brilhos, aos sons e à vida. Agora, ele tinha me levado à sacada, eu estava contemplando aquela noite maravilhosa, a noite que tinha sido abençoada por Deus, estava perfeita, como jamais estivera antes. Ele chegou por trás de mim e como um príncipe presenteia sua amada, me deu um beijo na face e ao mesmo tempo passou uma correntinha de ouro, e em um coração pendurado havia uma fotografia nossa, bem pequenininha, juntos. Era lindo. Meus olhos estavam marejados. Eu não podia conter a felicidade. Para algumas pessoas, aquela corrente podia ser apenas um mero detalhe, mas para mim, era o mundo pendurado em meu pescoço. Era o amor que ele tinha por mim, agora materializado. Assim que ele terminou, virei e dei-lhe o beijo mais puro que alguém já pôde dar. Beijei-o de uma forma única, irresistível. O calor de seu corpo e o aperto forte de seus braços era, agora, o melhor lugar do mundo, o meu refúgio, o meu porto-seguro. Lá embaixo, as músicas iam se repetindo, eu não pensava mais em nada, a não ser "curtir o momento". Os fogos começaram. Ele me deu mais alguns beijos e abraços, e claro, retribui todos, com todo o carinho daquela noite calorosa. Não tínhamos filhos, havíamos feito um ano de casados em Novembro daquele mesmo ano. Adormecemos entre conversas, risos e abraços. Foi o melhor Natal da minha vida. Amanheceu. - Amor, acorde, vamos à casa dos nossos familiares hoje - com sono ainda, dei uns empurrões amorosos nele -. Nada. - Amor, vamos, nós vamos perder a hora! - o cutuquei novamente -. Ele continuava com o rosto pacífico, como quem dorme um sono dos anjos. Me aprontei, me maquiei. Estava deslumbrante. Ele dormia ainda. Oh meu Deus, como não percebi antes? - Amor, ande logo, não temos mais tempo! - estava um pouco irritada agora, mas ele não se mexia -. Por um breve momento pensei no pior. Encostei meu ouvido em seu peito. Nada. Meus olhos começaram a encher de água, logo o desespero chegou. - Pelo amor de Deus, isso não está acontecendo! - disse com a boca trêmula -. Me dei conta do oceano de gotas que se espalhavam sobre o meu rosto desesperado. Em um milésimo de segundo, lembrei da correntinha da noite anterior, lembrei das vezes em que ele me pegava de surpresa comendo chocolate e ria da minha cara, porque eu dizia que estava de dieta, lembrei de quando ele chegava do trabalho cansado e, ainda assim, preparava o jantar, com o melhor humor do mundo, lembrei de quando nos casamos, de quando ele disse que prometia me amar e respeitar, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, até que então, a morte nos separasse, mas por que tinha que ser tão cedo assim? Por quê? As lágrimas o molhavam tanto. Corri, liguei para a emergência. Em prantos, disse rapidamente o que havia acontecido. - John, por favor, acorde! Por favor! Não me deixe aqui! -. Soluçava. O socorreram, e eu fiquei ali, desolada. Era tarde demais. Não existia mais Natal. Não para mim. Não para ele. Não para nós dois. Ele se foi e junto com ele, o meu coração. Agora, o único coração que ainda existe em mim, é o que pende sobre meu peito, em detalhes de ouro. Um presente singelo, mas o mais marcante de todos. Que leva, bem pequenininho, uma fotografia. A de nós dois. E com ele o amor da minha vida, pela eternidade.

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