Era um dia calmo e tudo parecia normal. Acordei com uma mensagem no celular, dele, me dizendo carinhosamente para acordar. Respeitei, afinal, já estava na hora de levantar mesmo. Logo que troquei de roupa, como se ele soubesse, veio outra mensagem dizendo para tomar o café rapidamente, pois ele estaria em casa em mais ou menos uns vinte minutos. Eu e Jeremy éramos muito amigos, e em todos os finais de semana saíamos bem cedo, de manhã, pelos bosques contando bobagens, rindo da vida, comendo maçãs e no final do dia, contemplávamos o pôr-do-sol, que cá entre nós, era o melhor de todo o mundo, o céu sempre ficava meio arroxeado, meio alaranjado e as nuvens ficavam com a auréola toda dourada e entre algumas delas, os feixes de luz se transpassavam, formando uma espécie de túnel luminoso, que pendia até as altas montanhas, o sol cor de abóbora parecia uma espécie de deus, fazendo a sua cerimônia do final do dia, se despedindo para o sono rejuvenescedor. Nós dois nos conhecemos à uns nove anos, quando minha família mudou, em um verão, para o vilarejo "Windmill", pois queriam um lugar mais calmo, mais tranquilo e sem um boletim diário de criminalidade para viver. Logo no primeiro dia de mudança, a família de Jer, como o chamo, veio fazer as honras, ajudando-nos com a arrumação da casa, daí em diante as nossas famílias não se desgrudaram mais. Eu e ele éramos muito pequenos quando nos conhecemos, ele é três anos mais velho que eu, mas mesmo assim a nossa amizade sempre foi muito pura, mas agora tenho dezessete anos e o que sinto por ele, talvez não seja mais tão puro assim, mas prefiro guardar pra mim mesma, afinal ele nunca sentiria nada por mim, somente a pura amizade que cultivamos por tantos anos.
Estava um pouco nublado aquela manhã, mas nada conseguia tirar o clima quente daquele lugar e o brilho sutil do sol, eu estava de bom humor, mesmo tendo sido acordada às 7:00h em pleno sábado, o que era uma coisa muito surpreendente e boa no meu ponto de vista. Jer estava muito bonito, tinha penteado o cabelo e estava perfumado, coisas que eram dignas apenas de grandes dias, grandes comemorações, dignas de datas importantes. Jer tinha os olhos cor-de-mel, sua pele era clara e os cabelos negros como carvão, tinha o porte físico forte e o sorriso perfeito. Chegou sorrindo, me abraçou forte, eu até estranhei, normalmente me daria um soquinho no ombro e afagaria meus cabelos. Começamos, então, nossa trilha matinal, mas dessa vez ele estava me guiando para o outro lado do vilarejo, um lugar onde eu nunca havia estado antes. Prossegui sem perguntas, confiava de olhos fechados em Jer. Os passarinhos cantavam em uma melodia harmoniosa e corriam de um galho pra o outro feito macacos nas árvores. Eu adorava aquele lugar, adorava o cheiro da relva, um cheiro puro, o melhor perfume. Minha mãe sempre confiou em Jeremy e em mim, nunca se queixou das nossas saídas por Windmill, nunca me perguntou por onde íamos sempre, nunca teve medo de nós dois, do que poderíamos descobrir juntos, talvez por perceber o quão puro e ingênuo era o que vivíamos.
No caminho inteiro eu tinha feito pequenos comentários e ele parecia muito concentrado, dava pouca importância para o que eu falava, mas sempre sorria. Havia um riacho de águas cristalinas à uns cinco metros de onde estávamos sentados, cheio de rochas com musgo, dentro e fora dele, ao redor do riacho e em vários outros pontos, haviam algumas árvores, que deixavam o lugar ainda mais romântico. O céu agora, era de um azul limpíssimo, sem nuvens, e eu o apreciava sorridente, apoiada com as mãos na grama e um pouco inclinada para trás, o brilho do sol me banhava à vontade. Enquanto pensava em coisas supérfluas, o que era muito comum, senti a mão de Jeremy sobre a minha. Suei frio. Sem graça o olhei, ele estava na mesma posição que eu, mas não me olhou, apenas se retraiu e continuou a observar a paisagem. Será que ele estava sentindo algo por mim ou teria sido apenas um erro de cálculo, um gesto sem querer? Não sabia. O silêncio pairava, mas em um súbito movimento Jer segurou novamente a minha mão, agora sem timidez e sem eu poder recuar, virou para mim e com sua mão esquerda, segurou sutilmente meu rosto e como num filme, me beijou. Sem perceber nós já estávamos inteiramente enroscados, com mãos ora dadas, ora enfiadas nos cabelos um do outro. Jer vivia me falando que gostava dos meus cabelos, eles eram castanhos claros e lisos, batiam em minha cintura e nas pontas formavam leves caracóis. Eu nunca tinha beijado ninguém, tinha um pouco de vergonha disso, minhas amigas debochavam dessa minha atitude, mas a verdade é que nunca havia encontrado motivos suficientes para fazer tal proeza apenas por fazer, apenas para satisfazer o ego de pessoas que não pagavam as minha contas, mas agora... ah agora essa vontade era insaciável, no começo não foi fácil, eu mal sabia abrir a boca, mas agora, era como se tivesse ficado anos sem comer, sem beber, sem viver e agora estava descobrindo o prazer delas novamente. Era como se eu precisasse daquilo. Eu tinha para mim que seria apenas um breve momento e quando terminasse, nós iríamos nos olhar envergonhados e voltaria, talvez, a ser como sempre foi, mas sem mesmo que eu pudesse terminar esse pensamento, ele parou, olhou no fundo dos meus olhos, beijou a minha testa e com um sorriso singelo, tirou uma caixinha em forma de coração de dentro do bolso e pousou-a em minhas mãos, que suavam. Meus olhos se encheram de lágrimas quando vi aquela joia linda. Olhei na mão direita dele e lá estava no dedo anular, um idêntico ao que estava na caixinha, e sem que eu pudesse pensar, ali estava ele de joelhos, me pedindo para ser dele e me dizendo que há meses tinha pensado na maneira mais bela de fazer aquilo, mas as coisas tinham tomado um rumo diferente e a vontade de "mim" falou mais alto que a programação hollywoodiana que ele tinha planejado e me pedindo desculpas por não conseguir ser romântico como eu merecia. Ele não sabia que ele tinha feito muito, mas muito mais do que eu esperava, começando pelo fato de ser tudo o que eu sempre sonhei e por eu ser tudo o que ele sempre quis. Ali começava então a nova parte da minha história. A parte onde eu comecei a entender o que era a felicidade.



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